quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Sensações

O que aconteceu
O vento bateu,
a esperança encolheu
Nosso corpo fugiu no breu

Mal sabem o sol e o horizonte
Cruzando com você ao meu lado esta ponte,
nada mais é pesado
Minha armadura cai e meus pecados são deixados

Nossa alegria de verão é assim
Cinza como o frio gélido de marfim,
em frente a uma lareira quente
Sentimos a veia pulsar no calor ardente.

terça-feira, 21 de agosto de 2012

Man



The man's running through his own heart
trying to find what he will never reach
He doesn't know yet, but he can't move on
with his heart in pieces

A shadowlight is getting close to his soul
Going against every wall that he built
Splattering all over his saddest pulses

He wonders if there's something wrong
'cos he can't breath happiness
but he isn't perhapsing for it
at the end he knows that he'll live no longer to see the sun shine

He found himself on a bright light uncaged
also he's so good enough to caring for everyone around;
darling he's lost
an unexplained pain that burns so high
oh his mind cross a huge circle;
however his heart will break with collapses under his empire.

domingo, 1 de julho de 2012

Te cuida


Quando os caminhos parecem estreitos
E bate aquele aperto mostrando que nada parece ter jeito
Vê se te cuida
Se lembre de mim te falando pra reciclar a muda

Insisti demais no que foi brincadeira pra você
Juntei cada centavo e atravessei a cidade com um buquê
Só pra dizer em um abraço: te cuida
Não fique perdido quando eu permanecer na miúda

As rosas renasceram nas carícias que ficariam para trás
Mas vê se te cuida e me fala como você está qualquer dia
Mesmo que seja em uma noite de carência fria
Vê se te cuida, que eu cuidei demais
De um sentimento que só a mim satisfaz

terça-feira, 29 de maio de 2012

Verdade e Poder - Michael Foucault (Microfísica do Poder - Resenha)

 Na sociedade atual, Foucault usa a verdade como vínculo suscetível para explicar a relação entre poder e base científica, justificando com interesses econômicos e políticos. Um indivíduo perito em determinado assunto obtém instâncias para manipular um grupo social ou massa através de sua própria influência aquisitiva e discurso científico. A junção entre estes dois polos forma a chamada "concepção de verdade" contemporânea no ciclo da microfísica do poder, como, por exemplo, a votação da presidenta Dilma Rousseff sobre o código florestal para fins lucrativos, camuflando-os em conjunturas de poder, argumento e base científica (meio ambiente e progressão do desenvolvimento sustentável e preservação de espécies ameaçadas), usando argumentos de instituições de ensino superior para ser aceito como verdade não permanente, mas sim mutável.

Hora de Voltar


Hoje eu senti saudade do seu corpo no meu. E de como sua cara é linda quando eu a aperto contra meu peito, dando beijos na sua bochecha carregados de ternura e afeto. Lembrei também das suas pernas se entrelaçando nas minhas e o calor de nossos corpos bastava para combater cinco graus de temperatura.
 Lembrei-me de como é lindo quando o vento bate em seus cabelos e de como você lambe o lábio quando digo que ele é lindo. Abre um sorriso que me encanta e tem um olhar que me desarma.
 Sorri ao lembrar que nunca falta conversa entre a gente, e que compartilhar experiências vai além das relações passadas, tem uma sintonia entre nós. Uma sintonia que nos contorna entre carinhos e afinidades, melancolias e malabarismos de humor que só a gente entende.
 Chorei ao lembrar-se da nossa dança naquele quarto frio e com pouca iluminação. Lembrei-me de como a megalópole parecia uma cidade litorânea. Limpei a lágrima em meu rosto e segurei a saudade no meu peito; a saudade do seu toque, do seu cheiro e do seu jeito desatento de ser – o que também me deixa confortável, já que atenção não é meu forte.
 Hoje olhei minha polo e queria que soubesse que ainda não a lavei, só para sentir seu cheiro, seu doce, sua essência.
 Lembrei-me de como parecíamos duas almas brilhantes e singelas em um mundo desesperado. E de como é lindo te ver dormir. Eu finalmente entendi aquele velho ditado dizendo que só vamos entender o porquê não deu certo com outras pessoas, quando acharmos a certa. É exatamente assim que me sinto contigo; transbordado, feliz, melancólico, irônico.
 Já havia lhe dito que não procuro por agora explicar como tenho certeza de que é você quem me marcou e marca, e nem quero – porque aí fica muito lógico e racional. Você sabe que não quero te envolver em prensas, mas, como se diz em “Reflections of a Skyline”, meu sentimento não cabe em uma palavra, nem frase. Por isso não a pronuncio; talvez um dia explique isto para nossos filhos, se você quiser.
 Ontem, hoje e amanhã só posso afirmar que o que sinto é um “(...) imensurável, infinito, inabalável, sem fim, intenso, completo, em expansão, ensurdecedor, silencioso, quântico, simples e puro amor.” Mesmo que você nunca mais entre em meu blog ou veja esta tentativa de expressão na tela. Seu amor me pega em cada centímetro do meu corpo e em cada milímetro do meu coração.
 É hora de voltar, mal posso esperar para te tocar, como navalhas que rasgam meu peito. Não é mesmo, amor?

quarta-feira, 11 de abril de 2012

Um trecho de "Jardins" - Rubem Alves

"Um amigo me disse que o poeta Mallarmé tinha o sonho de escrever um poema de uma palavra só. Ele buscava uma única palavra que contivesse o mundo. T.S. Eliot no seu poema O Rochedo tem um verso que diz que temos "conhecimento de palavras e ignorância da Palavra". A poesia é uma busca da Palavra essencial, a mais profunda, aquela da qual nasce o universo. Eu acho que Deus, ao criar o universo, pensava numa única palavra: Jardim! Jardim é a imagem de beleza, harmonia, amor, felicidade. Se me fosse dado dizer uma última palavra, uma única palavra, Jardim seria a palavra que eu diria."
Depois de uma longa espera consegui, finalmente, plantar o meu jardim. Tive de esperar muito tempo porque jardins precisam de terra para existir. Mas a terra eu não tinha. De meu, eu só tinha o sonho. Sei que é nos sonhos que os jardins existem, antes de existirem do lado de fora. Um jardim é um sonho que virou realidade, revelação de nossa verdade interior escondida, a alma nua se oferecendo ao deleite dos outros, sem vergonha alguma... Mas os sonhos, sendo coisas belas, são coisas fracas. Sozinhos, eles nada podem fazer: pássaros sem asas... São como as canções, que nada são até que alguém as cante; como as sementes, dentro dos pacotinhos, à espera de alguém que as liberte e as plante na terra. Os sonhos viviam dentro de mim. Era posse minha. Mas a terra não me pertencia.

O terreno ficava ao lado da minha casa, apertada, sem espaço, entre muros. Era baldio, cheio de lixo, mato, espinhos, garrafas quebradas, latas enferrujadas, lugar onde moravam assustadoras ratazanas que, vez por outra, nos visitavam. Quando o sonho apertava eu encostava a escada no muro e ficava espiando.
Eu não acreditava que meu sonho pudesse ser realizado. E até andei procurando uma outra casa para onde me mudar, pois constava que outros tinham planos diferentes para aquele terreno onde viviam os meus sonhos. E se o sonho dos outros se realizasse, eu ficaria como pássaro engaiolado, espremido entre dois muros, condenado à infelicidade.
Mas um dia o inesperado aconteceu. O terreno ficou meu. O meu sonho fez amor com a terra e o jardim nasceu.
Não chamei paisagista. Paisagistas são especialistas em jardins bonitos. Mas não era isto que eu queria. Queria um jardim que falasse. Pois você não sabe que os jardins falam? Quem diz isto é o Guimarães Rosa: "São muitos e milhões de jardins, e todos os jardins se falam. Os pássaros dos ventos do céu - constantes trazem recados. Você ainda não sabe. Sempre à beira do mais belo. Este é o Jardim da Evanira. Pode haver, no mesmo agora, outro, um grande jardim com meninas. Onde uma Meninazinha, banguelinha, brinca de se fazer Fada... Um dia você terá saudades... Vocês, então, saberão..." É preciso ter saudades para saber. Somente quem tem saudades entende os recados dos jardins. Não chamei um paisagista porque, por competente que fosse, ele não podia ouvir os recados que eu ouvia. As saudades dele não eram as saudades minhas. Até que ele poderia fazer um jardim mais bonito que o meu. Paisagistas são especialistas em estética: tomam as cores e as formas e constróem cenários com as plantas no espaço exterior. A natureza revela então a sua exuberância num desperdício que transborda em variações que não se esgotam nunca, em perfumes que penetram o corpo por canais invisíveis, em ruídos de fontes ou folhas... O jardim é um agrado no corpo. Nele a natureza se revela amante... E como é bom!
Mas não era bem isto que eu queria. Queria o jardim dos meus sonhos, aquele que existia dentro de mim como saudade. O que eu buscava não era a estética dos espaços de fora; era a poética dos espaços de dentro. Eu queria fazer ressuscitar o encanto de jardins passados, de felicidades perdidas, de alegrias já idas. Em busca do tempo perdido... Uma pessoa, comentando este meu jeito de ser, escreveu: "Coitado do Rubem! Ficou melancólico. Dele não mais se pode esperar coisa alguma..." Não entendeu. Pois melancolia é justamente o oposto: ficar chorando as alegrias perdidas, num luto permanente, sem a esperança de que elas possam ser de novo criadas. Aceitar como palavra final o veredicto da realidade, do terreno baldio, do deserto. Saudade é a dor que se sente quando se percebe a distância que existe entre o sonho e a realidade. Mais do que isto: é compreender que a felicidade só voltará quando a realidade for transformada pelo sonho, quando o sonho se transformar em realidade. Entendem agora por que um paisagista seria inútil? Para fazer o meu jardim ele teria que ser capaz de sonhar os meus sonhos...
Sonho com um jardim. Todos sonham com um jardim. Em cada corpo, um Paraíso que espera... Nada me horroriza mais que os filmes de ficção científica onde a vida acontece em meio aos metais, à eletrônica, nas naves espaciais que navegam pelos espaços siderais vazios... E fico a me perguntar sobre a perturbação que levou aqueles homens a abandonar as florestas, as fontes, os campos, as praias, as montanhas... Com certeza um demônio qualquer fez com que se esquecessem dos sonhos fundamentais da humanidade. Com certeza seu mundo interior ficou também metálico, eletrônico, sideral e vazio... E com isto, a esperança do Paraíso se perdeu. Pois, como o disse o místico medieval Angelus Silésius:

Se, no teu centro
um Paraíso não puderes encontrar,
não existe chance alguma de, algum dia,
nele entrar."




quarta-feira, 4 de abril de 2012

Alguns

Pequeno cansaço

Sinto-me indisposto

Seja para andar ou sentir

Sinto-me apagado

Só pelo fato de não conseguir sorrir

São cinco e meia

Vejo o sol clarear

Machuca meus olhos

Queima minha alma

Meu corpo começa a fraquejar

Sinto-me exausto.

--

Tiros

Direciona-se com uma flecha

Certeira, desenfreada e profunda

Carregada de ternura, inteligência e apatia

Solidão e aflição. Incoerente e inquieto

Por que me abandona?

No fluxo do anoitecer; vem dançar

Que a sua mão eu já não sinto

Sob suas mentiras e suscintos

Tornei-me fortaleza;

Não me venha com essa de frieza.

Rest n' Glory

This sensation which drags you into a deep and unfound feeling that may suffocate ‘til you feel your bones collapsing into a dash and tough rain involving all kind of experiences that you lived, that you’d live.

This sensation crashes your mind between freak vibrations which pushes you to the edge, so you pull so many memories while thoughts are spinning in your head when your shoes are the wrong one.

And then you start to cogitate why are you here if you smell and feels like nothing in an army, unable to purpose some space in all whole world. It feels like you loved too much. You expected too much and day by day it’s getting closer to something you don’t know, something heavy – but you don’t deserve it. You’re collapsing, wanting so badly to sleep and rest; but you can’t close your eyes without feeling this tearing pain, and your endless suffer.

This sensation brings you closely to run, to get away from people – oh you need a break. So you expect this won’t last forever, but you’re hopeless. Dancing through the mistakes of everyone. You look to the mirror and you see nothing but loneliness, expecting that someone comes around your neck and tells you that everything will be okay, so you note that your cup of coffee it’s getting to an end, so as you burning in the edge, catching what you really needed – a rest. Your hands hurt ‘cause you’re writing too much in another language just ‘cause you feel better in that way. And you’re walking and writing – you just can’t stop – you can’t avoid that, you need to put it out. People are staring at you, I’m watching you. I see you desperate, I see you all from the inside.

You’re crossing the street seeing those people walking over and over, so you run. Yes, you’re feeling right on top wearing a crown becoming close to who you are. You’re getting free from everything – you arrived home; got your existence point of glory as a wave comes to the end of the beach. You arrived home once – you’re dead. Useless smart brain, you’ve turned it off.

domingo, 25 de março de 2012

Dois

Tudo estava distante, separado. A distância não era nem por falta de comunicação, mas sim de contato. Eles sentiam-se estranhos quando estavam pertos e, desde então, começou a contagem regressiva para ambos saírem do conformismo e aceitar que tudo ia separar-se. Que já não se completavam mais, infelizmente. Os olhares cruzavam-se em intervalos de espaço entre o silêncio da noite que mais pareciam gritos agudos e insuportáveis. Eles já sabiam. Só faltava o toque para a labareda em brasa alta escorrer pelas histórias e tampar as cicatrizes. Sabiam que deveriam mudar seus caminhos, fechar aquela fronteira para poder construir novas estradas. Era triste, mas necessário. Sabiam que com a pessoa certa as coisas fluíam, poderiam sentir vontade de ser como realmente eram e não como se projetaram. Era hora de ir embora, era hora de soltar a mão e, por fim, sabiam que a união entre duas pessoas é algo que envolve essência e espontaneidade, afinidade. E isso não se mendiga e não se controla; é recíproco. Só o silêncio eloquente poderia retratar o quão era difícil, mas tinham de partir. Jamais iriam se esquecer de tudo que viveram e aprenderam um com o outro. O som do violino banhado sobre a noite sinalizava a partida e, com um abraço forte e um último beijo, soltaram-se. Ambos sabiam que uma parte de sua essência foi tirada para viver com o outro, para servir de lembrança. Mas lembrança boa, daquela que dá saudade e te faz sorrir de bobeira. Aquele tipo de saudade que te faz agradecer por tê-la conhecido. São nestes momentos que sabemos que estamos vivos. Vivos para eventualmente renascer sobre a luz do solstício que sempre nos aguarda e, quando se atinge este ponto entre duas pessoas, o ponto de que tudo vai explodir, mas que valeu a pena, é hora de seguir em frente. É hora de dissipar. Tudo estava próximo, unido - e então se abriu o sorriso mais lindo do Universo e andaram com a cabeça erguida, sem mágoa, com dor, com drama. É da dor que vem castelos Imperiais. A proximidade não era nem por falta de apatia, mas sim de conhecimento. Tudo estava acabado, renascido.

sexta-feira, 9 de março de 2012

Words

Lord, I see so much sadness on me

And I’m not proud

Why does you do that to me?

When I’m just trying to find something to catch

Isn’t it all about, Lord?

We are all dancing around the crap, insane and pure guilty of the world

I look to my picture on my wall

And I was a little baby, so empty

I haven’t so much to offer but thoughts

And I see emptiness on me

That picture, Lord – was empty

But I’ve helped so many people

Do I draw ‘em future? Do I drain this on me?

I’m talking to you, I’m talking to myself

Stop thinking, go try to love someone again


Maybe that’s the answer for me to sleep

I can’t handle one more cup of coffee even when I love it

Mama, I’m sorry for being weak

But I feel this closing in

And I felt like a genius yesterday

But today it only collapses

I don’t know anymore

I’m pleasured for everyone that I made ‘em laugh

So they didn’t know about this pain

For being heavy and empty at the same time

I should call not one but twice at a day to you, grandma – ‘cos I love you

That’s so comfortable

I’ll always smile to you, I’ll always avoid you to see me sad

Sadly side, heavy size

Slowly

Disappear.

domingo, 4 de março de 2012

Oito e Oitenta

Da sacada que bate a brisa fria da cidade megalômana havia uma mulher que fazia reflexões entre sua mente e o coração. Ela, apaixonada, sentia um pêndulo entre o destino e o passado, aberturas e espinhos. Ela possuía dificuldades em engolir as farpas da sua paixão e, por isso, estagnava-se em sólidas rochas.

Muitas vezes achava um exagero, mas ela sabia que era necessário analisar. Só não sabia até quando deveria se manter nesta envolvente intensidade de um turbilhão de pensamentos. Sabia também que seria um erro começar, mas também sabia que seria errôneo não arriscar. Por quê? Ninguém sabe. Quem a observa vê sua expressão delicada e analítica, talvez oscilando entre o usado e o amado. Entre mais uma de uma fila passada, querendo não ser uma rosa amassada ou uma passagem criada.

A paixão dela é intrigante. Ao mesmo tempo se mostra a criatura mais pura e singela do Universo, mas às vezes sente o seu passado no ambiente ao redor. Na expressão que ela usa, no toque que ela exerce. Sabe que a paixão tem sonhos, ambições e objetivos, sabe o que ela procura e consegue enchê-la de alegria e lágrimas ao mesmo tempo.

Esta paixão a deixou abismada por possuírem histórias tão parecidas e ela sempre sentir que alguém especial e de coração enorme entre na vida dela para ser salva. E ela cogita tanto a razão pela qual isso acontece. Qual a explicação para sempre usar suas asas e salvar a alma mais simplória?

A certeza vem juntamente com as correntes do passado e se torna uma neblina ofuscada, onde se mistura tristeza e felicidade. Ela gostaria de sentir a felicidade, assim como sua paixão. Ela também sabe que quando os dois corpos e corações se juntam no calor da ternura, isso já não importa mais. Não importa mais nada, não há desavenças e nem controvérsias, mas há correntes. Há correntes que a tomam pela mente e envolvem seu coração que desesperadamente implora para ser aberto por completo, ela não sabe oscilar entre o sim e o não. A paixão a faz ser oito e oitenta.

Ela ouve gritos dela pedindo, por favor, que deixe o passado morto, mas ao mesmo tempo suas asas são oprimidas pelo museu de indiferença do passado. E então ela quer sumir, ficar quieto para apagar o zero e ficar oito ou talvez acrescentá-lo para tornar oitenta. O seu peito suplica para que seja aberto e esteja totalmente desarmado para sua paixão entrar. Assim, ambos podem desfrutar da vida e viver intensamente, ambos podem carregar os sonhos e somá-los, transformá-los e abandonar todo este dilema. Ambos chegam perto, com lágrimas no rosto. Cria-se um diálogo rápido.

Posso pegar na sua mão?

- Sim, mas vai me deixar confusa e pensativa.

Posso te abraçar apertado?

- Sim, mas vai doer quando você me soltar.

.. e vai me machucar quando algum fato relembrar seus quadros de arte negativos.

(...) Que tortura. Daqui de cima vejo a asa e o coração dos personagens e também vejo seus olhos secos de tanto procurar lágrimas onde já não há mais. (...) Da sacada que bate a brisa fria da cidade megalômana havia uma mulher que fazia reflexões entre sua mente e o coração. Ela, apaixonada, sentia um pêndulo entre o destino e o passado, aberturas e espinhos. Ela possuía dificuldades em engolir as farpas da sua paixão e, por isso, estagnava-se em sólidas rochas.

Muitas vezes achava um exagero, mas ela sabia que era necessário analisar. Só não sabia até quando deveria se manter nesta envolvente intensidade de um turbilhão de pensamentos. Sabia também que seria um erro começar, mas também sabia que seria errôneo não arriscar. Por quê? Ninguém sabe. Quem a observa vê sua expressão delicada e analítica, talvez oscilando entre o usado e o amado. Entre mais uma de uma fila passada, querendo não ser uma rosa amassada ou uma passagem criada.

A paixão dela é intrigante. Ao mesmo tempo se mostra a criatura mais pura e singela do Universo, mas às vezes sente o seu passado no ambiente ao redor. Na expressão que ela usa, no toque que ela exerce. Sabe que a paixão tem sonhos, ambições e objetivos, sabe o que ela procura e consegue enchê-la de alegria e lágrimas ao mesmo tempo.

Esta paixão a deixou abismada por possuírem histórias tão parecidas e ela sempre sentir que alguém especial e de coração enorme entre na vida dela para ser salva. E ela cogita tanto a razão pela qual isso acontece. Qual a explicação para sempre usar suas asas e salvar a alma mais simplória?

A certeza vem juntamente com as correntes do passado e se torna uma neblina ofuscada, onde se mistura tristeza e felicidade. Ela gostaria de sentir a felicidade, assim como sua paixão. Ela também sabe que quando os dois corpos e corações se juntam no calor da ternura, isso já não importa mais. Não importa mais nada, não há desavenças e nem controvérsias, mas há correntes. Há correntes que a tomam pela mente e envolvem seu coração que desesperadamente implora para ser aberto por completo, ela não sabe oscilar entre o sim e o não. A paixão a faz ser oito e oitenta.

Ela ouve gritos dela pedindo, por favor, que deixe o passado morto, mas ao mesmo tempo suas asas são oprimidas pelo museu de indiferença do passado. E então ela quer sumir, ficar quieto para apagar o zero e ficar oito ou talvez acrescentá-lo para tornar oitenta. O seu peito suplica para que seja aberto e esteja totalmente desarmado para sua paixão entrar. Assim, ambos podem desfrutar da vida e viver intensamente, ambos podem carregar os sonhos e somá-los, transformá-los e abandonar todo este dilema. Ambos chegam perto, com lágrimas no rosto. Cria-se um diálogo rápido.

Posso pegar na sua mão?

- Sim, mas vai me deixar confusa e pensativa.

Posso te abraçar apertado?

- Sim, mas vai doer quando você me soltar.

.. e vai me machucar quando algum fato relembrar seus quadros de arte negativos.

(...) Que tortura. Daqui de cima vejo a asa e o coração dos personagens e também vejo seus olhos secos de tanto procurar lágrimas onde já não há mais. (...)

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Marionetes e Música

Britolfo. Era assim que o viam e era assim que nascera – estranho, deslocado e cansado. Tão cansado que nascera com uma peculiaridade de não chorar quando veio ao admirável mundo novo. Pensavam os tolos que a desencaixada criança estava morta, engano. Era viva, tão intensa na sua forma que observava cada gesto e tomava cada aprendizado como incentivo para brilhar em tanto conhecimento.

Já crescida, comia livros. Estudava de literatura até filosofia. De arte até psicologia e suas ênfases antropológicas e etimológicas. Era inteligente, conseguia passar coisas absorvidas em longas noites mal dormidas até quando permanecia quieto.

No meio social, era tonto; fingia-se. Procurava ocultar seu conhecimento para não entediar as outras pessoas, então se tornava a massa tediosa, voltando a sentir-se como no nascimento; cansado. Brito achava que se estudasse grandes obras de revolucionários e pensadores poderia entender o porquê do cansaço sobre a humanidade. Viu que era tudo igual, previsível. Por mais mistério ou abertura que um grupo ou indivíduo tivesse, seria tudo igual – com o mesmo fim.

Como se trata de uma breve e cômica história, Brito neste parágrafo já estava grande. Já morava sozinho, trabalhava e vivera grandes amores, grandes viagens. Claro, com o dobro de conhecimento e, agora, sabedoria. Neste espaço entre a vida e a morte, Britolfo resolveu sair para dançar em um dia exclusivamente agitado, ou pelo menos ele o julgava assim. Colocou uma roupa básica, mas elegante. Sempre com seu jeito estranho e sério – seus óculos estavam tortos e sua carteira era furada.

Nada iria abater aquele sentimento de liberdade engendrada sobre outras gaiolas em paradigmas impostos pelo ambiente proposto. Brito sentia-se alegre, procurou um local para beber e posteriormente dançar, pois já sabe que muito não vai encontrar nestas redondezas, além de luzes e maquetes. Seu conhecimento e bagagem sofisticada de nada mais valiam naquela noite.

Brito era sozinho, de poucos amigos. Mas os poucos que tinha chamavam-os de irmão, por isso nesse dia foi com seu melhor amigo. Davam-se muito bem, pois riam das obviedades dessas ocasiões, riam daquela casualidade, mas também lamentavam por tanta mesmice.

Entraram para dançar. A selva estava cheia, repleta de pessoas que também se desligaram do mundo. Desligaram suas preocupações, seus encantos e argumentos. Brito e seu amigo sabiam disso. Por isso dançavam em volta de marionetes. Marionetes vagas que podem ser vistas no trabalho, no teatro ou no cinema.

Dançavam e abraçavam-se, conversavam na pista fora de hora. Saíam para olharem-se e agradeciam um ao outro pela companhia. Mas cansavam-se. As marionetes tornavam-se fumaça quando as luzes pararam de piscar. Todos iam embora e, por sua vez, Brito sentia-se cansado. Lembrou que não importa o lugar, no final sempre se sentia cansado. Cansado de estar entre marionetes, talvez cansado daquela luz, da bebida. Dos teatros e cinema, embora adorasse. Lembrou também que se sentia entediado e cansado sobre quase tudo, menos escrever. Relembrou de todos os cansaços que já sentia, de todas as promessas que ouvira e sabia que seriam só palavras de atos previsíveis, surpreender-se-ia senão fossem falsos.

O que há de errado em cansar-se com o final, se teremos um novo começo, Britolfo?

Então olhou para seu amigo e sorriu. Colocou a mão sob seu ombro e foram para casa, sabendo que a cada passo seria uma volta e meia pelas marionetes.

sábado, 18 de fevereiro de 2012

Holanda fará eutanásia em domicílio. Por aqui, aliviar a dor é crime

A Holanda deve lançar, em março, a primeira unidade móvel do mundo para fazer eutanásia em domicílio. De acordo com matéria de Cláudia Collucci, na Folha de S. Paulo, a equipe vai atuar quando a família ou os médicos se recusarem a dar drogas letais a pacientes terminais que desejam morrer. Desde 2002, a eutanásia é legalizada no país, onde cerca de 2700 mortes assistidas são realizadas anualmente. As seis unidades móveis, compostas de um médico e um enfermeiro cada uma, devem elevar em mil esse total.A Federação dos Médicos Holandeses é contrária à iniciativa porque acredita que alguns pacientes poderiam ser tratados. A ministra da Saúde, Edith Schippers, disse ao parlamento que as unidades são “para pacientes que sofrem insuportavelmente sem nenhuma perspectiva de melhora”, mas cujos médicos não estão dispostos a fazer eutanásia.Têm sido frequentes os pedidos à Justiça na Europa e Estados Unidos para que doentes terminais com dores insuportáveis cometam eutanásia. Querem ter o direito de partirem lúcidos e ao lado dos familiares, mas muitos apelos vêm sendo solenemente ignorados – pelo governo, por médicos, pela família. Acabam cometendo suicídio sozinhos, outros ajudados na clandestinidade. Na verdade, pouco importa, porque em ambos os casos significa que o Estado e a sociedade lhes deram as costas.Histórias de médicos que cometem eutanásia (para além da ortotanásia, que é deixar a vida e a morte seguirem seu curso e se encontrarem) diariamente nas UTIs não são raridade no Brasil. Pessoas com sensibilidade para entenderem quando o seu semelhante quer dar cabo de sua existência devido a um sofrimento extremo e não tratável e responder a pedidos desesperados. Normalmente, aumentam a dose de medicação até o ponto de falência do organismo.Aqui no Brasil, estamos longe de debater nos termos da Holanda, por mais que o tema seja polêmico por lá. Falar disso, gera olhares de nojo e repreensão em muita gente. Mas não deveria, afinal não é uma discussão sobre a morte, mas sobre a vida e sua dignidade, ou seja, de como as pessoas querem terminar os seus dias. Afinal de contas, a nossa vida pertence a nós. Se alguém acredita que pertença a alguma entidade sobrenatural, dedique sua vida a ela. Mas não impeça a garantir de políticas públicas.O Estado deve proteger a vida. Mas que tipo de vida? Aquela sem qualidade nenhuma, de dor e sofrimento, apenas para cumprir uma exigência legal, filosófica ou religiosa?


A Indiferença

"Primeiro levaram os comunistas
Mas eu não me importei, porque não era nada comigo
Em seguida elvaram alguns operários
Mas a mim não me afetou, porque não sou operário

Depois prenderam os sindicalistas
Mas eu não me incomodei, porque nunca fui sindicalista
Logo a seguir chegou a vez
De alguns padres
Mas como nunca fui religioso, também não liguei

Agora levaram a mim
E quando percebi
Já era tarde."

Bertolt Brecht

sexta-feira, 17 de fevereiro de 2012

Eu te amo.. Não diz tudo.

Você sabe que é amado(a) porque lhe disseram isso?

A demonstração de amor requer mais do que beijos, sexo e palavras.

Sentir-se amado é sentir que a pessoa tem interesse real na sua vida,

Que zela pela sua felicidade,
Que se preocupa quando as coisas não estão dando certo,

Que se coloca a postos para ouvir suas dúvidas,
E que dá uma sacudida quando for preciso.

Ser amado é ver que ele(a) lembra de coisas que você contou dois anos atrás,

É ver como ele(a) fica triste quando você está triste,
E como sorri com delicadeza quando diz que você está fazendo uma tempestade em copo d'água.

Sente-se amado aquele que não vê transformada a mágoa em munição na hora da discussão.

Sente-se amado aquele que se sente aceito, que se sente inteiro.
Aquele que sabe que tudo pode ser dito e compreendido.

Sente-se amado quem se sente seguro para ser exatamente como é,
Sem inventar um personagem para a relação,
Pois personagem nenhum se sustenta muito tempo.

Sente-se amado quem não ofega, mas suspira;
Quem não levanta a voz, mas fala;
Quem não concorda, mas escuta.

Agora, sente-se e escute: Eu te amo não diz tudo!

Arnaldo Jabor


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Um trecho de "Cosmos" por Carl Sagan

"Discutindo a estrutura em grande escala do Cosmos, os astrônomos descobriram-se dizendo que o espaço é curvou, ou que não há um centro no Cosmos, ou que o universo é finito mas sem fronteiras. De que estariam eles falando? Imaginemos que habitamos um país estranho onde todos são perfeitamente planos. Segundo Edwin Abbott, um estudioso de Shakespeare que viveu na Inglaterra vitoriana, nós a chamamos de Terra dos Planos. Alguns de nós são quadrados, outros, triângulos, alguns possuem formas mais complexas. Corremos precipitadamente para dentro e para fora de nossas construções planas. Todos na Terra dos Planos têm largura e comprimento, mas não altura. Sabemos sobre esquerda e direita, para frente e para trás, mas nenhuma idéia, ou remota compreensão, sobre em cima e embaixo, exceto os matemáticos planos. Eles dizem: “Escutem, é muito fácil. Imaginem a esquerda e a direita. Imaginem à frente e atrás. Tudo bem até aqui? Agora imaginem outra dimensão, em ângulos retos com as outras duas”. E nós respondemos:”Do que vocês estão falando? Ângulos retos com as outras duas? Existem somente duas dimensões. Apontem esta terceira dimensão. Onde está ela?” Então os matemáticos, desanimados, desistem. Ninguém escuta os matemáticos.

Toda criatura quadrada na Terra dos Planos vê outro quadrado meramente como um penqueno segmento de reta, o lado do quadrado mais próximo dela. Ela pode ver o outro lado do quadrado somente se caminhar um pouco. Mas o interior do quadrado é sempre misterioso, a menos que algum acidente terrível ou atópsia rompa os lados e exponha as partes internas.

Um dia, uma criatura tridimensional, com a forma de uma maçã, por exemplo, chegou à Terra dos Planos e andou a esmo por lá. Observando um quadrado particularmente atraente e bem proporcionado, entrando em sua casa plana, a maçã decide, em um gesto de amizade interdimensional, dizer “olá”. “Como vai você?” pergunta o visitante da terceira dimensão. “Eu sou um visitante da terceira dimensão”. O infeliz quadrado olha à volta de sua casa e não vê ninguém. Ainda pior, para ele, parece que o cumprimento, vindo de cima, está emanando do seu próprio corpo plano, uma voz do interior. Uma pequena insanidade, talvez ele pense corajosamente, e corre para sua família.

Exasperada por estar sendo julgada uma aberração psicológica, a maçã desce à Terra dos Planos, somente em parte; pode ser visto somente um corte, somente os pontos de contato com a superfície plana da Terra dos Planos. Uma maçã escorregando na Terra dos Planos apareceria primeiro como um ponto e então progressivamente maior, quase que em fatias circulares. O quadrado vê um ponto parecendo em um quarto fechado em seu mundo bidimensional e lentamente crescer transformando-se quase em um círculo. Uma criatura de forma estranha e mutável surgiu de algum lugar.

Rejeitada, infeliz com a obtusidade dos muitos plano, a maçã bate com força no quadrado e o levanta, vibrando e girando nesta misteriosa terceira dimensão. A princípio o quadrado não consegue entender o que está acontecendo: está totalmente fora da sua experiência. Eventualmente ele se conscientiza que está vendo a Terra dos Planos de um local vantajoso peculiar: “acima”. Pode ver dentro de quartos fechados e dentro de seus companheiros planos. Está vendo seu universo de uma única e devastador perspectiva. Viajar através de uma outra dimensão proporciona, como um benefício incidental, um tipo de visão de raios X. Eventualmente, como uma folha que cai, nosso quadrado lentamente desce para a superfície. Do ponto de vista dos seus companheiros da Terra do s Planos, ele desapareceu de modo inexplicável de um quarto fechado, e então materializou-se, aflito, em algum outro lugar. “Pelo amor de Deus”, dizem eles, “o que aconteceu com você?” “Penso”, descobriu-se dizendo, “que estava acima”. Eles dão pancadinhas em seus lados e o confortam. As desilusões sempre aconteceram na família. (…)

Poderá haver uma quarta dimensão física?”

quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Quando você envelhece (...)

"Quando você envelhece, descobre que os amigos ranzinzas ficam mais ciumentos, prática sem cura, e você pára de implicar com eles e se diverte. Como pára de implicar com o blefador, que continua o mesmo, com o pão-duro, que só piora, com o teimoso, que insiste mais em suas opiniões, mesmo se estiverem furadas. Descobre que o engraçado tem novas e mais sofisticadas tiradas, e que a risada dele continua estremecendo o baralho. Descobre que a ressaca do uísque é melhor do que a da pinga, que prosecco e champanhe são só para brindar, que o vinho tinto argentino melhora a cada safra. Descobre que a comida deve vir com pouco sal e a salada, com muito azeite. Descobre que tomate e maçã fazem bem e embutidos, mal. Que queijos magros são mais aconselháveis do que aquele brie ou emental. Descobre que em inauguração de restaurante não se come, e que em lançamento de livro o vinho branco é alemão. Descobre que aquela mulher por quem você foi apaixonado continua apaixonante, e o deixa sem graça toda a vez que olhares se cruzam. E mesmo que ela tenha se casado com seu inimigo, com quem teve quatro filhos, continua irresistível, e você fica sem graça ao lado dela como se ainda tivesse 16 anos, e ela sabe disso, e você não sabe por que enrolou tantas décadas nem por que você não a seqüestrou logo quando se conheceram na escola.
Quando você envelhece, descobre que todas as suas ex merecem carinho, um presente, um almoço, ou até um simples conselho, um telefonema eventual, um e-mail, talvez, perguntando se está tudo bem, se precisa de ajuda. E descobre que o fim da história mal resolvida não tem explicação. E se ela perguntar um dia se você entendeu as decisões dela, você devolve: "De ter me largado? Não, e você entendeu?" Sabe o que ela dirá? "Também não." Descobre que os filhos quando crescem não têm nada a ver com os pais nem se encaixam nas projeções, comparações ou expectativas criadas na infância. Descobre que, mesmo filiado a uma geração que quebrou tabus e diminuiu o gap entre pais e filhos, os segundos nunca entenderão os primeiros, haverá um conflito que parece ser a força motriz das relações: o novo nega o antigo, o dominante perde espaço, o gene é aprimorado. Você descobre que a moda da sua adolescência volta. Com outros pingentes e significados. A roupa não vem com a simbologia contestatória ou alienante, nem com a mesma trilha musical ou discussões existenciais. A bata que você usou no passado vira moda novamente, mas não se cantam as mesmas músicas, nem se debatem os mesmos dilemas. A roupa volta sem conteúdo ideológico. Descobre que as modas seguem um princípio dialético que se repete. O beat veio pra contestar o acomodado anterior. E sempre vem algo pra conservar. O hippie veio pra contestar, a disco veio pra acomodar, o punk veio pra contestar, o yuppie veio pra acomodar, o dark, pra contestar, o new wave, pra acomodar, o grunge, pra contestar, o clubber, pra acomodar, o britpop, contestar, o emo, acomodar. Mas, de repente, ao envelhecer, você descobre que tais conceitos são relativos, como tudo, que o cara da discoteca queria dançar, como o cara da onda new wave e clubber, que há contestação no ato de pular e dançar com roupas coloridas em momentos obscuros, e há acomodação no paz e amor do hippie, que produziu o pseudo-acomodado punk niilista e autodestrutivo. Quando você envelhece, lê cada vez menos matérias que falam de saúde ou milagres da medicina. Porque você sabe que já afirmaram que café faz mal, e já afirmaram depois que faz bem, o mesmo com o sal, o mesmo com o vinho, já aconselharam comer uma castanha-do-pará por dia e já desaconselharam, o mesmo com a pílula de alho, complexos vitamínicos, aspirina, Ginkgo biloba, até açaí. Depois de ser banida de todas as listas de dietas aconselháveis, agora dizem que carne vermelha faz bem. Que vitamina C não cura gripe, todos sabem, mas todos continuam tomando e apostando nela. Se você está nos entas, já deve ter parado de fumar, trocou a Coca pela água com gás, e sabe que está na hora de aprender para que servem alguns botões do DVD ou comandos do celular, e sabe que está na hora de começar a ler manuais de aparelhos que estão cada vez mais sofisticados. Ler com óculos de leitura, óbvio. Você sabe que envelheceu quando confunde giga com mega, ainda diz liquidação, em vez de sale, não sabe se o trema foi abolido, usa ASA e não pixel, descobre que as letras das bulas ou dos rótulos são em outra língua e ilegíveis, e que ler cardápio à luz de velas é desesperador. Lamenta que o Brasil de fato não tem jeito, não cresce, é resistente a mudanças, é conservador, evita discutir temas como aborto, eutanásia, descriminalização da maconha, união homossexual, tem dificuldades em se enquadrar no time de países progressistas, e que a desigualdade só aumenta, a corrupção, idem, as favelas, idem, sabe que antes da Copa do Mundo tem aquela barulheira ufanista, e que se o Brasil perde vão procurar um culpado e terá até CPI, sabe que brasileiro não sabe perder no futebol, que continuarão a invadir gramados, e nunca ninguém será preso, que muitos camelôs venderão contrabando ou falsificados, que na apuração do carnaval vai rolar briga e protestos, na novela alguém será assassinado, outro descobrirá que não é filho de quem pensa que é, que um teminha polêmico, tipo casal do mesmo sexo se beijando, será debatido por colunistas e reprovado por religiosos. A vantagem de envelhecer? Retirar da vida expectativas que só a tornam mais complicada e descobrir que no fundo ela é também engraçada."

Marcelo Rubens Paiva - O Estadão

terça-feira, 24 de janeiro de 2012

O interior de um Arquipélago composto por um turbilhão de pressentimentos e pensamentos

Estou num daqueles momentos de reflexão sobre tudo que me encaixa neste ciclo de inúmeras atitudes. Revejo pontos em que errei, agi impulsivamente, desesperadamente procurando um motivo estável o suficiente para me sentir bem, para fugir de respostas que eu já tinha em mãos.

Os gregos costumavam dizer que não magoar alguém é uma tarefa impossível, principalmente se você pretende manter toda sua conjuntura estrutural de pé. Seja racional ou emocionalmente falando.

Em certo período andei frio e distante, custando-me algum tempo sozinho para perceber que justamente como qualquer lado negativo de qualquer outra pessoa, eu também o possuo. E para ser totalmente sincero, fiquei feliz em saber que nenhuma parte em mim está morta, mesmo que negativamente; percebi que os que eu conto ao meu lado podem se adaptar ao meu jeito, assim como eu faria com eles.

O que me incomoda é o meu lado positivo. Está opaco, pouco regado. Antes eu conseguia mantê-lo por muito tempo, mas esta cidade o pressiona muito. Talvez meu outro lado partindo de milhões de outras partes tornou-se mais camuflados para tentar manter-se no aço desta cidade.

Sim, caros, esta cidade mesmo; a dos sonhos. A tão cidade mencionada por tantos, almejada por muitos e propriamente falando, sonhada por todos. Não os culpo, afinal, esta cidade oferece possibilidades de crescimento e oportunidades exclusivas que talvez outras não proporcionassem. Mas este é o ponto, já não falando de mim e sim de todas as pessoas englobam crescer com camuflagem, tornam-se multicoloridas, o que não é ruim quando a ambição está longe. Pessoas de essência vêm para cidade com um objetivo, mas acabam se perdendo.

De repente é uma selva de quem se torna mais forte ou não. Inteligência virou sinônimo de ser evasivo e escorregadio. Afetos se perdem, ficam em stand by. Subitamente, percebo cada vez mais que aspectos como lucro, luxúria e frieza tornam-se potências para sobreviver neste ambiente.

Quanto mais o tempo passa, percebo também que meu lugar não é aqui. Inviavelmente acabo pegando um pouco deste comportamento selvagem. Ando lutando para não me envolver mais do que o necessário e fico feliz de sempre conseguir coletar somente o mínimo que esta megalópole exige.

Sei que é preciso algumas vezes um tempo sozinho. Mas as pessoas estão acostumadas a lidar com pressão excessiva, desilusões e individualidade, o que consequentemente as torna mais competitivas. Um abraço não é mais um abraço, é uma chance de conseguir algo ou deixar algo bem para voltar às atividades e metas. Esta cidade me deixa sempre na defensiva; desconfiando se alguém ainda não distorceu o sentido de honestidade e humanidade.

Eu não pertenço aqui. Quero um lugar mais calmo, onde eu possa mostrar sempre minha positividade sem esse medo da dor. Onde eu possa refletir mais, sorrir e me encantar com o simples. Andar na areia satisfeito com a vida que levo. Não sei se isto envolve ser forte ou não, mas talvez seja uma questão de ultra-sensibilidade ou na vista de várias pessoas; drama. Só sei que não suporto o jeito das pessoas se enterrarem. Pessoas que conheci de um jeito e que tinham a percepção de jamais se perderem como muitos nesta cidade. Mas hoje já estão quase camuflados, querendo ou não. Me irrita também o fato de eu também achar jeitos para me camuflar – o que me torna mais triste, solitário ou apático – mesmo que em uma fração.

Na medida em que vou escrevendo sinto-me mais humano. Começo a lembrar do meu sorriso e de como eu gostava de fazer os outros rirem. De como as pessoas se sentiam muito bem ao meu lado.

Duas conclusões podem ser feitas; sou totalmente nostálgico e humano escrevendo. Não aceito desligar meu cérebro e navegar junto com todos os marinheiros monótonos. Isto não pode me bastar, me prejudicar. Mas é uma batalha árdua e com uma pitada do meu dom para novela mexicana, torna-se mais complexo.

Como gosto de perguntas reflexivas, termino o texto com esta aos meus queridos leitores: Estamos nos camuflando demais vivendo uma vida complicada ou exageramos tornando-a mais complicada do que realmente aparenta?


terça-feira, 17 de janeiro de 2012

Somewhere Someone is Thinking of You

“Somewhere someone is thinking of you. Someone is calling you an angel. This person is using celestial colors to paint your image. Someone is making you into a vision so beautiful that it can only live in the mind. Someone is thinking of the way your breath escapes your lips when you are touched. How your eyes close and your jaw tightens with concentration as you give pleasure a home. These thoughts are saving a life somewhere right now. In some airless apartment on a dark, urine stained, whore lined street, someone is calling out to you silently and you are answering without even being there. So crystalline. So pure. Such life saving power when you smile. You will never know how you have cauterized my wounds. So sad that we will never touch again. How it hurts me to know that I will never be able to give you everything I have.”


Henry Collins

Uma leve reflexão sobre "Exercer serviços sociais com ambições financeiras"

A sociedade desde sua etimologia está correlacionada a serviços judiciais, pessoais, tributários, legislativos e federais. Até a associação sobre ética e moral foi devidamente encaixada na função de exercer um “papel” na sociedade.

Com tudo, somos criados para ocupar um espaço proliferado sob medidas antagônicas ao que realmente queremos. Uma criança contemporânea está afundada sob meios tecnológicos e isentas de ramificações pessoais aspirantes. Ocupar um lugar na sociedade e alcançar estabilidade senão poder tornou-se algo indubitável.

Campanhas por modificações sociais e protestos contra a óbvia injustiça de todos os setores trabalhistas (Primário, Secundário e Terciário) já não alcançam tanto prestígio como há tempos atrás. A sociedade atual assimila “serviço” e “social” moral aos aspectos financeiros e superficiais.

As pessoas não querem mais cogitar o que está errado ou evidentemente paradoxal e aceitam a forma absurdamente exploratória que gira em torno de capital lucrativo do qual o grande porcentual de poder executivo estabelece. Esquecem-se do que abrange realmente exercer um serviço na sociedade, o que fatalmente torna-se um limite de pena. Também se esquecem que grandes mentes com espírito dimensional e visionário um dia moveram exércitos e progressões sociais para o bem desta degradável sociedade.